Gravidez precoce e fraca cobertura de unidades sanitárias preocupa cirurgiões de fístula obstétrica

Médicos especialistas em cirurgia de fístula obstétrica e reconstrução pélvica mostraram-se preocupados com situações de casamento prematuro, gravidez precoce e a fraca cobertura de unidades sanitárias que tem contribuído para aumento de casos de fístula obstétrica no país.

Julho 19, 2023 - 20:14
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Médicos especialistas em cirurgia de fístula obstétrica e reconstrução pélvica mostraram-se preocupados com situações de casamento prematuro, gravidez precoce e a fraca cobertura de unidades sanitárias que tem contribuído para aumento de casos de fístula obstétrica no país.

Falando a jornalistas na terça-feira, 18 de julho, no Hospital Central da Beira (HCB), no âmbito da campanha provincial de tratamento de fístula obstétrica e reconstrução pélvica, o cirurgião Igor Vaz, Director da Focus Fístula Moçambique explicou que a fraca cobertura de unidades sanitárias têm dificultado o entendimento adequado de mulheres durante a gravidez.

 

“Há situações em que a mulher vai à unidade sanitária, mas o parto é mal atendido devido a falta de condições, mas também ainda existe a ideia de se fazer o parto em casa. É preciso ter o parto nas unidades sanitárias, é preciso fazer o acompanhamento da gravidez nas unidades sanitárias para evitar que isso aconteça”, disse, Igor Vaz, acrescentando que “muitas vezes as doentes chegam às unidades sanitárias quando o bebe já morreu, quando já passam dois ou três dias de pós-parto. Já tivemos casos de mulheres que chegaram à unidade sanitária depois de uma semana em trabalho de parto”.

 

O especialista, aponta ainda gravidezes precoces como estando associado a casos de fístula e apela para a necessidade de se fazer planeamento familiar.

“As mulheres devem programar as gravidezes e não aparecer com gravidez aos 12, 13 ou 14 anos. Os casamentos prematuros devem ser evitados, gravidezes precoces devem ser evitadas. É preciso planejar a gravidez. Se a mulher em cada nove meses tiver uma gravidez também vai ter complicações no parto. Então, é preciso planear a gravidez, é preciso ir às consultas pré-natais e é preciso ver quando é a melhor altura para ter um bebé”.

 

O médico aponta as províncias de Nampula e Zambézia como sendo as que apresentam maior número de casos. “As províncias de Nampula e da Zambézia são as mais populosas e são as que apresentam mais casos de fístula. Eu penso que quase a metade da população de Moçambique está nestas duas províncias. Ainda não temos uma cobertura sanitária suficiente. Este país passou de sete milhões na altura da independência para 32 milhões, mas nós não aumentamos o número de médicos, não conseguimos pagar adequadamente os médicos e nem conseguimos criar unidades sanitárias para ter cobertura para toda a gente”.

 

Zélia Cristina, cirurgia geral do HCB reitera os apelos para os casos de gravidez precoce que tem sido uma das causas das fístulas obstétricas.

“A mulher não pode engravidar muito cedo. Nós sabemos que os ossos de uma menor de 18 anos e a bacia ainda não está preparada para suportar uma gravidez. O bebé não tem como sair. É importante que a gravidez seja na idade certa, na hora e no momento certo”.

 

Por sua vez, Mahomed Afzal Mussa, também cirurgião geral do HCB considera que a campanha de tratamento da doença é também uma oportunidade para a partilha de experiências para o tratamento de casos complexos.

 

“Ao longo do tempo nós fomos operando as fístulas e fomos observando que cada vez mais apareceriam casos mais complexos na província de Sofala. Ficávamos um pouco limitados para tratar destes casos. Mas com este apoio da Focus Fístula e com experiência do Doutor Igor Vaz aumentamos mais o leque de oportunidade de podermos tratar destes casos. E a nossa maior satisfação é ver alguém que vem desesperado a perder urina e sai daqui curada e volta à vida normal. Temos uma equipa muito grande, temos aqui médicos, enfermeiros e administrativos todos envolvidos para que sejam tratados o maior número de doentes”.

 

O médico, diz que a província tem feito o mapeamento de doentes, mas muitas vezes encontram barreiras pois muitas mulheres depois de contraírem a doença acabam se confinando e não se apresentam nas unidades sanitárias.

 

“Neste momento na província de Sofala temos cerca de 300 casos de fístula já mapeados. Acreditamos que existam muito mais. O grande problema é que as mulheres que apresentam as fístulas são muitas vezes estigmatizadas na sociedade. Grande parte delas são jovens de 14 anos, 15 ou 16 anos, que devido a doença são colocadas de parte pela família. O marido a rejeita porque está a deitar e a cheirar urina, a sociedade afasta-se dela, ninguém aceita lhe dar emprego. Portanto, é uma menina, uma jovem ou uma senhora que tem aquilo que podemos chamar de morte social. Ela está viva, mas é colocada de parte. Estas cirurgias vêm para devolver a dignidade a estas mulheres”.

 

Na campanha estão doentes de nove distritos da província de Sofala, nomeadamente Nhamatanda, Dondo, Gorongosa, Buzi, Chibabava, Inhaminga, Marínguè, Machanga, e da cidade da Beira. As mesmas têm entre 15 e 55 anos de idade, que na sua maioria contraíram a doença durante o parto. A excepção, é uma criança de 4 anos, que contraiu fístula com 3 anos de idade depois de ter sido violada sexualmente.

 

“Sou natural de Nampula. Tive o primeiro casamento e tive minha filha. Divorciei e fui para o segundo casamento e fui ao distrito de Muanza com meu segundo marido. Alguém levou minha filha e foi violar sexualmente no mato. Meu marido e os amigos diziam que o violador fugiu e era para eu não apresentar o caso à polícia. Eu vim para Beira para minha filha ter tratamento. Ela perdia urina e fezes pela vagina. Quando cheguei no hospital disseram para aguardar médico vir de Maputo para ter tratamento. Fiquei no hospital por mais de seis meses. Depois encontramos a pessoa que violou a minha filha, estava doente e veio parar aqui no hospital. Denunciei à polícia e ele foi algemado, mas depois morreu aqui no hospital. Minha filha foi operada ontem (segunda-feira) e está a recuperar bem. Meu marido arranjou outra mulher, mas eu estou aqui com minha filha, quero vê-la melhor”.

 

A campanha de tratamento decorre no âmbito da implementação da Estratégia e Programa Nacional de Prevenção e Tratamento da Fístula Obstétrica e dos esforços conjuntos para a eliminação da fístula obstétrica até 2030. Em Moçambique, estima-se que cerca de dois mil e quinhentos novos casos de fístula obstétrica são registrados anualmente.

 

Desde 2018 até ao momento, mais de 4.000 mulheres foram operadas no país, em campanhas ou em operações selectivas, pelo Programa Nacional de Fístula do MISAU, das quais a Focus Fístula contribuiu com cirurgias de fístula gratuita para cerca de 600 mulheres e raparigas, em particular das zonas rurais, de diferentes províncias e distritos.

 

Fístula obstétrica é uma abertura anormal entre o trato genital da mulher e seu trato urinário ou recto, causado por trabalho de parto arrastado e obstruído sem acesso a cuidados médicos imediatos e de qualidade. A fístula obstétrica pode ser prevenida, através do acesso a cuidados obstétricos de emergência, e acompanhamento pré-natal e de parto seguro.