Réus admitem participação no plano para assassinar Nini Satar
Os dois có-reus ouvidos quinta-feira (20) pelo Tribunal Judicial da Machava admitiram ter aderido a um plano para assassinar Momad Assif Abdul Satar, mais conhecido por Nini, em reclusão no Estabelecimento Penitenciário de Máxima Segurança, vulgo BO, na província meridional moçambicana de Maputo, por envolvimento no assassinato, em 2000, do jornalista Carlos Cardoso, e num desfalque de 144 milhões de meticais (2.254.492 dólares norte-americanos, ao câmbio corrente) no extinto Banco Comercial de Moçambique.
O julgamento do caso iniciou na semana finda (20.04), e no banco dos réus estão quatro indiciados ora presos, nomeadamente Edson Muianga, Leão Wilson, Damião Mula e Eugénio Chicuamba. O quinto arguido do caso está foragido. Trata-se de Lenine Macamo, agente da Polícia tido como o cabecilha do plano.
Os cinco são acusados de tentar assassinar Nini Satar, em Fevereiro do ano passado, que também está preso na B.O., mas o plano foi abortado devido à fuga de informação. Um dos indivíduos que deveria cometer o crime partilhou o plano com um colega de cela que imediatamente comunicou aos serviços de inteligência do estabelecimento penitenciário que passou a monitor as chamadas telefónicas. Neste trabalho descobriu-se o envolvimento de agentes da Polícia da República de Moçambique, afectos à Unidade de Intervenção Rápida.
Segundo o “Notícias” de hoje (21), Damião Mula, o primeiro réu a ser ouvido, também detido pelos crimes de roubo qualificado, posse e uso de armas proibidas, raptos e associação para delinquir, disse no interrogatório conduzido pelo juiz Lucílio Nhanombe ter aceitado associar-se ao plano a convite do có-reu António Chicuamba, em troca de dinheiro e soltura da prisão.
Revelou na sua audição que o seu papel no esquema para assassinar Nini Satar seria de identificar alguém no mesmo pavilhão da vítima para facilitar a materialização do plano.
Fez saber ainda que o plano inicial compreendia a aquisição de um medicamento que seria administrado na água de banho de Nini Satar pelo réu Maulana, do pavilhão da vítima.
Por julgar-se um plano complexo, partiu-se para a ideia de adquirir uma arma branca, que seria usada para esfaquear a vítima durante os banhos de sol.
Já o réu Leão Wilson disse ter sido coagido a entrar no esquema de assassinato de Nini Satar com promessa de receber em troca dinheiro e soltura.
Afirmou também que o plano era de simular a morte de Nini, em coordenação com a vítima, que recebeu um celular de um agente da guarda prisional para fazer gravações de áudios sobre o esquema, mas com conhecimento de Nini Satar.
Alegou que a faca que seria usada no segundo plano do esquema de tentativa de assassinato de Nini Satar foi adquirida e entregue pela vítima.
Ainda na quinta-feira, a 1.ª Secção Criminal do Tribunal Judicial da Machava ouviu o réu António Chicuamba, também detido na cadeia de Máxima Segurança.
Hoje, o Tribunal agendou a audição dos co-réus José Ngulele e Edson Muianga, da Unidade de Intervenção Rápida.
Das investigações apurou-se que os agentes da Unidade de Intervenção Rápida, supostamente envolvidos, não pretendiam ser eles a executar a “tarefa”. Teriam confiado essa função a alguns reclusos da própria B.O.
Para convencer os reclusos a entrarem no esquema, os agentes teriam dito que a ordem era de superiores e que vinha de quadros de instituições do Estado, como a Procuradoria-Geral da República. No entanto, na audiência preliminar os arguidos em causa disseram que os mandantes deste crime são dois: um paquistanês e outro da raça branca.
Nini Satar é um dos condenados pelo envolvimento no assassinato do jornalista Carlos Cardoso, ocorrido em Novembro de 2000. Ele foi condenado a 24 anos de prisão, mas saiu em liberdade condicional em 2014, cumprida metade da pena, por bom comportamento.
Sucede que, em 2015, ele pediu para ir à Índia, onde ia tratar de questões de saúde.
De lá terá seguido rumos desconhecidos pelas autoridades e, para a sua localização, foi preciso accionar a Interpol. Nini Satar foi encontrado na Tailândia e trazido a Moçambique em 2018. Cumpre, agora, 12 anos de prisão e já com outros crimes, como roubo, falsificação de documentos e sequestros.
(AIM)