Os ventos de democracia e boa convivência política sopram de Quelimane

O edil da Cidade de Quelimane, Manuel de Araújo, empossou na quarta-feira, 10 de Janeiro, novos quadros para a gestão municipal. Entre os empossados, destaque vai para Salvador Gani, que é irmão mais novo do cabeça-de-lista da Frelimo, Lourenço Gani. Mas segundo o edil, no seu discurso de ocasião, no seu executivo estão também membros de outros partidos políticos, como o Movimento Democrático de Moçambique.

Os ventos de democracia e boa convivência política sopram de Quelimane

 

“Temos, no nosso Governo, pessoas que pertencem a vários partidos políticos. Alguns pertencem ao partido Renamo, outros ao partido Frelimo e ainda há os do MDM. Não é isso que nos divide, não há nem deve haver divisão na distribuição dos pelouros. Pregamos a inclusão e exercemo-la”, disse o edil de Quelimane.

 

Num país onde aqueles que governam olham para os seus opositores como inimigos, a postura de Manuel de Araújo deve ser amplamente saudade. É um exemplo de democracia e de boa conivência política. Salvador Gani andou durante a campanha eleitoral para as últimas eleições autárquicas ao lado do seu irmão Lourenço Gani.

 

É isto que se esperava de Filipe Nyusi após ter dito, no seu discurso de tomada de posse para o primeiro mandato, que as boas ideias não têm cor partidária. Aliás, este discurso fez com que Nyusi caísse nas graças de muitos sectores da sociedade, incluindo aqueles que tradicionalmente são críticos ao regime. Mas após entrar na Ponta Vermelho, Nyusi começou a fazer o oposto daquilo que dissera. Começou a olhar e para os seus opositores políticos e todos os que pensam o país de forma crítica, como inimigos. Que o diga Afonso Dhlakama que foi caçado como se de um animal se tratasse pelas Forças de Defesa e Segurança. Jornalistas e analistas políticos foram violentados pelos esquadrões da morte (um grupo ligado ao regime). A sociedade de civil viu o espaço cívico a fechar em Moçambique. Exercer o direito à manifestação em Moçambique é igual a cometer crime. Isto é intolerância e ditadura.

 

 A postura de Manuel de Araújo convoca-nos a todos para a necessidade de uma reflexão profunda sobre o Estado, a sua gestão e os critérios de selecção dos gestores da coisa pública. Manuel de Araújo mostra aqui que quando a agenda é servir o Estado temos que ter a coragem de ir para além das cores partidárias. É preciso olharmos para o mérito e a competência. E a cor partidária, a cor da pele, o credo religioso, não devem ser requisitos para se ser gestor público. 

 

Se seguimos esse raciocínio, nunca devíamos ter tido um Janfar Abdulai como vice-ministro dos Transportes e Comunicações. Mas como para os nossos dirigentes, o primeiro requisito para ocupar um cargo público, Janfar Abdulai foi tirado do MTC e colocado como Presidente do Conselho de Administração da Empresa Moçambicana de Seguros. Será que Moçambique não tem quadros competentes? A resposta é simples. A competência não é o requisito principal para se ser dirigente na República de Moçambique. O importante é ser da Frelimo. A quem vá dizer que Nyusi nomeou o Presidente do PDD, Raul Domingos para o cargo de embaixador no Vaticano. É sim facto que isso aconteceu, mas porque o regime tinha interesse. Raul Domingos só foi para Vaticano porque a Frelimo queria assegurar que a oposição ficasse sem o líder sério capaz de lhe fazer frente. Com uma oposição dirigida por Ossufo Momade e Lutero Simango, Raul Domingos era a única ameaça para o regime.

 

A postura de Manuel de Araújo mostra que é possível a democracia e a convivência política pacífica não são um sonho distante. Bem-haja, Manuel de Araújo.