Nyusi deixa país em “caos” e proclama "dever cumprido" em último discurso
Dez anos depois, o presidente da república, Filipe Nyusi, prestou hoje, na Assembleia da República, o seu último informe anual sobre o Estado da Nação, afirmando que deixa a Presidência da República com o sentimento de dever cumprido.
Nyusi destaca o seu envolvimento directo nos processos de busca pela paz e reconciliação como o principal legado de sua governação.
Durante os dois mandatos, Nyusi percorreu caminhos ousados rumo à paz, incluindo a deslocação à serra da Gorongosa, província de Sofala, para se encontrar com o então líder da Renamo, o falecido Afonso Dhlakama, a fim de negociar a paz para o país, vista como condição sine qua non para o desenvolvimento.
"Por isso, com profunda emoção e sentimento de dever cumprido entregamos a nação, este Moçambique, reconciliado”, disse Nyusi nos primeiros minutos do seu discurso sobre o Estado Geral da Nação.
“Este é o nosso legado de paz e reconciliação. Sem esta conquista, todas as outras conquistas estariam em risco. Quando a história e os dados discordam, geralmente, a história é que está certa”, acrescentou.
De acordo com o Chefe de Estado, como forma de consolidar esse feito, o governo pretende construir um memorial de paz em Gorongosa, que simboliza o acordo de cessação de hostilidades assinado entre o governo e a Renamo. "Trocámos esta visão com a liderança da Renamo.
O memorial vai homenagear os protagonistas dos processos de paz em Moçambique e fazer da Gorongosa uma referência nacional e internacional na construção de paz, tolerância e reconciliação", anunciou.
Nyusi admitiu que a guerra contra os grupos terroristas em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, ainda está longe de ser vencida. No entanto, assegurou que o executivo combinou a resposta militar com soluções económicas que trouxeram esperanças animadoras, com o envolvimento combinado das forças da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e do Ruanda.
"Ainda não fomos capazes de eliminar total e definitivamente o terrorismo no norte de Moçambique, mas conseguimos conter e fazer recuar estas ações”, disse.
Sobre a problemática dos raptos, o Chefe de Estado partilhou números que demonstram a gravidade do problema, com o país a registar 22 crimes de rapto desde janeiro de 2023, assumindo implicitamente o fracasso nesse aspecto.
"Não resolvemos o problema dos raptos, mas estamos a combater dentro das nossas capacidades. Quando me perguntam sobre este assunto, digo que fiz tudo o que eu podia", salientou.
Vários críticos do regime consideram que a governação de Nyusi foi um autêntico fracasso, a julgar pelos níveis de pobreza no país, que dispararam de 65% em 2022 para 87% da população, segundo dados da Estratégia Nacional de Desenvolvimento (ENDE) 2025-2044.
O documento revela que mais de metade da população vive em condições precárias, agravadas pela inflação crescente.
Em Cabo Delgado, a pressão da crise de terrorismo continua, com insurgentes ainda a causar terror, levando a deslocamentos internos e criando uma crise humanitária sem precedentes.
No sector público, o executivo tem enfrentado várias greves nos sectores da justiça, educação e saúde, com descontentamentos e manifestações devido à falta de condições de trabalho e aos baixos salários.
A governação de Nyusi também foi marcada por alegações de violação dos direitos humanos. Nos últimos dois anos, várias manifestações públicas foram reprimidas com violência, resultando em derramamento de sangue.
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